Tuberculose vertebral (mal de Pott)
Caso clínico
Paciente, acompanhado da irmã, relata início de dor intensa na coluna. No dia seguinte, procurou atendimento em hospital de urgência, permanecendo internado por aproximadamente 19 dias. As avaliações evidenciaram lesão vertebral, mas sem conclusão diagnóstica inicial.
Após a alta, evoluiu com sudorese profusa no período vespertino, febre não aferida, dor intensa na coluna e no tórax exacerbada aos movimentos, além de poliartralgia de grandes articulações com edema.
Ressonância magnética de tórax, biópsia de corpo e pedículo vertebral, cultura de material de costela e coluna e exame histopatológico evidenciaram coleções líquidas paravertebrais, erosões dos corpos vertebrais entre T7 e T12 e coleções paraesternal, subpleural e no músculo psoas. A cultura para Mycobacterium tuberculosis foi positiva.
Foi instituído protocolo RIPE por dois meses, seguido de rifampicina e isoniazida. O paciente apresentou melhora progressiva e refere atualmente resolução das queixas álgicas, com previsão de tratamento total por 12 meses.
Objetivos de aprendizagem
Conhecer as principais partes anatômicas de uma vértebra típica.
Compreender as relações anatômicas entre as vértebras cervicais, torácicas, lombares e sacrais.
Reconhecer as curvaturas da coluna vertebral.
Entender como danos às vértebras podem prejudicar a movimentação e sustentação do corpo.
Anatomia da coluna vertebral aplicada ao caso
A compreensão da anatomia da coluna vertebral é essencial para interpretar os achados clínicos e de imagem deste caso, especialmente o envolvimento do segmento torácico.
1. Características das vértebras
A coluna vertebral é formada por vértebras organizadas em regiões cervical, torácica, lombar, sacral e coccígea. Essas estruturas sustentam o peso da cabeça e do tronco, protegem a medula espinal, servem como locais de inserção muscular e participam da mobilidade da cabeça e do tronco.
No caso, o acometimento das vértebras torácicas médias e inferiores é particularmente relevante: essa região possui cifose fisiológica e mantém íntima relação com as costelas, ajudando a compreender a associação entre dor vertebral e dor torácica exacerbada pelo movimento.

Cada vértebra apresenta um corpo vertebral anterior, associado à sustentação do peso, e um arco vertebral posterior. Na tuberculose vertebral, os corpos vertebrais são especialmente relevantes por apresentarem osso esponjoso e rica vascularização, favorecendo a disseminação hematogênica. A destruição dessas estruturas pode resultar em erosão e colapso vertebral.
O arco vertebral contém pedículos e lâminas. Os pedículos conectam o arco ao corpo vertebral e participam da delimitação dos forames intervertebrais. O alinhamento dos forames vertebrais forma o canal vertebral, onde se encontram estruturas neurais, o que explica o risco de complicações neurológicas em casos avançados.
As coleções paravertebrais, subpleurais e paraesternais refletem a continuidade anatômica entre compartimentos. A extensão para o músculo psoas relaciona-se à origem do músculo em corpos vertebrais e processos transversos de T12 a L5.
1.1 Vértebras cervicais
As vértebras cervicais típicas possuem corpos pequenos e forames transversários. Atlas e áxis apresentam morfologia especializada: o atlas não possui corpo vertebral típico, enquanto o áxis apresenta o dente, em torno do qual ocorre a rotação do atlas.

1.2 Vértebras torácicas
As vértebras torácicas apresentam processos espinhosos longos e finos, processos transversos relativamente longos e articulações com as costelas. As costelas típicas formam articulações sinoviais planas com as vértebras torácicas: a cabeça da costela relaciona-se aos corpos vertebrais e ao disco intervertebral, enquanto o tubérculo articula-se com o processo transverso correspondente.
1.3 Vértebras lombares e 1.4 vértebras sacrais
As vértebras lombares possuem corpos grandes e espessos e recebem elevada carga mecânica. A relação com a origem do psoas ajuda a compreender o abscesso de psoas como complicação clássica da tuberculose vertebral. No sacro, cinco vértebras fundem-se em uma peça única, com crista sacral mediana, forames sacrais e hiato sacral.

2. Curvaturas da coluna vertebral
Em adultos, a coluna apresenta lordoses cervical e lombar e cifoses torácica e sacral. No paciente, a destruição e o colapso da porção anterior dos corpos vertebrais torácicos podem acentuar a curvatura torácica e produzir hipercifose patológica.

3. Lesões vertebrais
A integridade das vértebras é fundamental para sustentação, postura e movimento. Lesões dos corpos vertebrais podem reduzir a capacidade de suporte de carga e causar deformidade ou colapso. Lesões de processos ósseos podem interferir em inserções musculares e articulações, enquanto comprometimento de pedículos e lâminas pode afetar a proteção da medula e das raízes nervosas.
A tuberculose osteoarticular pode acometer a coluna vertebral e evoluir com destruição óssea, colapso e deformidade. No material do caso, o tratamento é descrito em fase inicial com RIPE por dois meses e fase de manutenção com rifampicina e isoniazida, totalizando 12 meses para formas ósseas e articulares.
Teste seu conhecimento
Responda às 8 questões. Ao finalizar, a AnatoClin mostrará sua pontuação e liberará os comentários.
Respostas comentadas
Depois de finalizar as questões, os comentários aparecem aqui automaticamente.
Referências e bibliografia complementar
PORTO, Celmo Celeno. Semiologia Médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.
CHADDHA, R. et al. Osteoporosis and vertebral column. Indian Journal of Orthopaedics, v. 57, supl. 1, p. 163–175, 2023.
DANGELO, J. G.; FATTINI, C. A. Anatomia Humana Sistêmica e Segmentar. 4. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2024.
MOORE, K. L.; DALLEY, A. F.; AGUR, A. M. R. Anatomia Orientada para a Clínica. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2024.
NETTER, F. H. Atlas de Anatomia Humana. 8. ed. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan, 2024.
ROSSATO SILVA, D. et al. Diagnosis of tuberculosis: a consensus statement from the Brazilian Thoracic Association. Jornal Brasileiro de Pneumologia, v. 47, n. 2, 2021.
VANPUTTE, C. L.; REGAN, J. L.; RUSSO, A. Anatomia e Fisiologia de Seeley. 10. ed. Porto Alegre: AMGH, 2016.
Unidade concluída?
Ao finalizar o quiz, esta unidade é salva como concluída neste navegador.
Voltar ao Sistema Esquelético